Criado em 1990 pelo Jornalista, Poeta e Produtor Cultural Ademir Bacca, o Congresso Brasileiro de Poesia teve suas primeiras edições realizadas na cidade de Nova Prata. A partir de 1996 passou a ser realizado em Bento Gonçalves. O Congresso Brasileiro de Poesia acontece durante uma semana com o apoio da Prefeitura Municipal de Bento Gonçalves e de Empresas e Comércio e é uma realização do Proyecto Cultural Sur Brasil.
vozes teoremas sintomas que sejam vulto paisagem seta, reta
curva ... sem raios ou coisa paisagem menos muralha
rasgos, sussurros, risco salto, movimento temperatura de homem ladrilho, asfalto
se febre, contágio se poema ocupação
leito, verso momento...
poesia.
Carmen Silvia Presotto, Vidráguas!, lendo Claudio Willer, uma das minhas maneiras de ler e escrevendo, outros de contar o poema em voz alta e importante que o sentir siga ecoando e a poesia, a leitura ressoando...
1. Mergulhar no texto até que seja possível compreender todo o seu universo dramático. Perceber as nuances de cada verso ou de cada palavra, para a partir daí ter condições de criar uma forma adequada de interpretação através da fala.
2. Respiração: Respirar calmamente para relaxar antes de cada leitura até sentir o corpo leve, e através da leitura silenciosa, observar espaços rítmicos do texto para melhor executar a respiração dentro desses espaços que devem ser explorados intensamente.
3. Memorização: Executar a leitura silenciosa até ter certeza que o texto está completamente compreendido em todos os seus códigos e significados. A partir daí, começar a executar uma leitura em voz alta, frente ao espelho de preferência, procurando verificar se verso por verso já está grudado na ponta da língua e na pele da memória.
OBS.: Essa Oficina de Poesia Falada pode ser oferecida a adomicílio, a acompanhada de uma Oficina de Produção de Vídeo, com tem sido realizada em São Conrado e Copacabana, no Rio de Janeiro, com aulas de duração mínima de 2 horas. Custo a combinar.
um poema se faz com ideias um poema se faz com palavras um poema se faz com um brilho repentino de suor e sal um poema se faz com paixão um poema se faz sem paixão um poema se faz com coisas esquisitas, coisas esquisitas tão bonitas que não confortam um poema se faz pelo prazer em fazer um poema e depois chorar
turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos
que furo escuro mais que escuro: claro como água? como pluma? claro mais que claro claro:
coisa alguma e tudo (ou quase) um bicho que o universo fabrica e vem sonhando
desde as entranhas azul era o gato azul era o galo azul o cavalo azul teu cu tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia
sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco
aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)
como uma entrada para eu não sabia tu não sabias fazer girar a vida com seu montão de estrelas e oceano entrando-nos em ti
bela bela mais que bela mas como era o nome dela? Não era Helena nem Vera nem Nara nem Gabriela nem Tereza nem Maria Seu nome seu nome era... Perdeu-se na carne fria perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia perdeu-se na profusão das coisas acontecidas constelações de alfabeto noites escritas a giz pastilhas de aniversário domingos de futebol enterros corsos comícios roleta bilhar baralho mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos
mudou de casa e de tempo: mas está comigo está perdido comigo teu nome em alguma gaveta
Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São
Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre
entre irmãos e pais dentro de um enigma? mas que importa um nome debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à
mostra entre cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário
diante de garfos e facas e pratos de louças que se quebraram
já
um prato de louça ordinária não dura tanto e as facas se perdem e os garfos se perdem pela vida caem pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre
os pés de erva-cidreira
e as grossas orelhas de hortelã quanta coisa se perde nesta vida Como se perdeu o que eles falavam ali mastigando misturando feijão com farinha e nacos de carne
assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada ou a tosse da tia no quarto e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente
à nossa janela tão reais que se apagaram para sempre Ou não?
Não sei de que tecido é feita minha carne e essa
vertigem que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros
de gás e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico acima do arco-íris perfeitamente fora do rigor cronológico sonhando Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas
mesas gastas balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria
beirais de casas cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à
mesa do jantar, voais comigo sobre continentes e mares
E também rastejais comigo pelos túneis das noites clandestinas sob o céu constelado do país entre fulgor e lepra debaixo de lençóis de lama e de terror vos esgueirais comigo, mesas velhas, armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, dobrais comigo as esquinas do susto e esperais esperais que o dia venha
E depois de tanto que importa um nome? Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes
do mundo: te chamo aurora te chamo água te descubro nas pedras coloridas nas artistas de
cinema nas aparições do sonho
- E esta mulher a tossir dentro de casa! Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada
fraca, O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no
inverno. E as formigas brotando aos milhões negras como
golfadas de dentro da parede (como se aquilo fosse a essência
da casa) E todos buscavam
num sorriso num gesto nas conversas da esquina no coito em pé na calçada escura do Quartel no adultério no roubo a decifração do enigma
- Que faço entre coisas? - De que me defendo?
Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas
e rosas (como pode o perfume nascer assim?) Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos
cresciam pés de tomate Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam
capins mais verdes que a esperança (ou o fogo de teus olhos)
Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade sob as sombras da guerra: a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas
os nazistas os comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda
a querosene o sabão de andiroba o mercado negro o racionamento
oblackout as montanhas de metais velhos o italiano assassinado
na Praça João Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães
troando nas noites de tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado
resiste. Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu
primo que passava rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de
Ferro, por seu Neco que fazia charutos ordinários, pelo sargento
Gonzaga que tomava tiquira com mel de abelha e trepava com a janela
aberta, pelo meu carneiro manso por minha cidade azul pelo Brasil salve salve, Stalingrado resiste. A cada nova manhã nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais
Mas a poesia não existia ainda. Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas. Olhos. Braços. Seios. Bocas. Vidraça verde, jasmim. Bicicleta no domingo. Papagaios de papel. Retreta na praça. Luto. Homem morto no mercado sangue humano nos legumes. Mundo sem voz, coisa opaca. Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira
singela? Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana,
voz de gente, barulho escuro do corpo, intercortado de
relâmpagos
Do corpo. Mas que é o corpo? Meu corpo feito de carne e de osso. Esse osso que não vejo, maxilares, costelas flexível armação que me sustenta no espaço que não me deixa desabar como um saco vazio que guarda as vísceras todas funcionando como retortas e tubos fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento e as palavras e as mentiras e os carinhos mais doces mais sacanas mais sentidos para explodir uma galáxia de leite no centro de tuas coxas no fundo de tua noite ávida cheiros de umbigo e de vagina graves cheiros indecifráveis como símbolos do corpo do teu corpo do meu corpo corpo que pode um sabre rasgar um caco de vidro uma navalha meu corpo cheio de sangue que o irriga como a um continente ou um jardim circulando por meus braços por meus dedos enquanto discuto caminho lembro relembro meu sangue feito de gases que aspiro dos céus da cidade estrangeira com a ajuda dos plátanos e que pode - por um descuido - esvair-se por meu pulso aberto
Meu corpo que deitado na cama vejo como um objeto no espaço que mede 1,70m e que sou eu: essa coisa deitada barriga pernas e pés com cinco dedos cada um (por que não seis?) joelhos e tornozelos para mover-se sentar-se levantar-se
meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo meu corpo feito de água e cinza que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio e me sentir misturado a toda essa massa de hidrogênio e hélio que se desintegra e reintegra sem se saber pra quê
Corpo meu corpo corpo que tem um nariz assim uma boca dois olhos e um certo jeito de sorrir de falar que minha mãe identifica como sendo de seu filho que meu filho identifica como sendo de seu pai
corpo que se pára de funcionar provoca um grave acontecimento na família: sem ele não há José Ribamar Ferreira não há Ferreira Gullar e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta estarão esquecidas para sempre
corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato
atravessados de cheiros de galinheiros e rato na quitanda ninho de rato cocô de gato sal azinhavre sapato brilhantina anel barato língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato nos pentelhos com meu corpo-falo insondável incompreendido meu cão doméstico meu dono cheio de flor e de sono meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio de tudo como um monturo de trapos sujos latas velhas colchões usados
sinfonias sambas e frevos azuis de Fra Angelico verdes de Cézanne matéria-sonho de Volpi Mas sobretudo meu corpo nordestino Mais que isso maranhense mais que isso sanluisense mais que isso ferreirense newtoniense alzirense meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos
Prazeres ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo sob as balas do 24º BC na revolução de 30
e que desde então segue pulsando como um relógio num tic tac que não se ouve (senão quando se cola o ouvido à altura do meu
coração) tic tac tic tac enquanto vou entre automóveis e ônibus entre vitrinas de roupas nas livrarias nos bares tic tac tic tac pulsando há 45 anos esse coração oculto pulsando no meio da noite, da neve, da chuva debaixo da capa, do paletó, da camisa debaixo da pele, da carne,
combatente clandestino aliado da classe operária meu coração de menino