el castillo de loco
era onde ele dormia: isca noturna entre algumas traças e pulgas... e quando muito, ele que não dormia, estraçalhava tudo com as unhas; se dormia era entre os restos de rimas, urros e urina.
e
dentro das xícaras matutinas, ele depositava o dia a dia, as suas caspas e as cinzas do cigarro de tabaco ... e seguia competindo com as baratas o asco do filtro [porque assim sentia melhor a nicotina], o seu desjejum, o seu resto de juízo e o alho, que era tudo o que ele mantinha na cozinha ...
e
enquanto ele observava o quadro de aviso-feltro "não alimente uma formiga", cerceava-lhe a rotina, entre os seus flagelos e as suas vertigens coloridas; retalhava o ácido do movimento externo da bengala, o cáustico entre as bexigas amarelas, e o lático das outras bolas de poligaláceas, as quais ele carregava junto a cadeira, ou na beira de seu chapéu que descansava-lhe a barriga...
e
refletia sobre as maravilhas divinas e a luz demoníaca
sua vida pelos olhos castanhos ... do amor...
Adriana Zapparoli
Um canto a Eros, ao anoitecer...
O amor é feito verso
quantum que corre
rio que não se sabe...
se para, fica, rima,
presilha
.... ou dispara
O amor diverso efeito
alarido
sussurro
algazarra
calmarias e zunido no peito,
quando ouvido é fibra atenta
rabicó e febre potente
dedo sal língua de gente
maresia, canto em mil disfarces
quando me enquadro com Eros,
controverso em pés silábicos
solto o peso e o espaço
leve o caminho, nos dedos
pó poesia...
... o amor, a vida de teu abraço.
Carmen Silvia Presotto – Vidráguas!
A fotografia é de Ilona Pulkestene!
calo os monstros que assolaram entranhas num tempo que urgia de perigo o corpo. aborto contente pedaços doentes que não me cabem mais. renasço das trevas do espelho que chuta na face verdade oculta. mudo na força da pedra que cai de realidade vazia. fraca me julgo por me permitir assim. junto pedaços e me faço de novo a mulher que julgo ser...e serei.
Flávia D´Angelo
www.pelegrafia.blogspot.com
foto: Beatriz Bajo
ode às distâncias
I
existe um mar dentro de um envelope sem remetente
a tinta usada para a carta é opaca
talvez escrita a lápis
existe uma constelação de palavras sem significado
aparente
quem sabe ápis
um tanto de saudade nos olhos de ressaca
atravessados
II
existe um pé dentro de um galope sem acidente
o tango traçado para o corpo empaca
talvez uma cicatriz
existe um coração descompassado
saliente
quem sabe aprendiz
um tantã de samba gris na mão que aplaca
inveterado
III
existem países dentro de um xarope sem entorpecente
o tinto bebido para o peito é faca
talvez arranque a raiz
existem línguas aladas sem agasalho
frementes
quem sabe fuzis
um tasco de silêncio na tez que arrebata
bordado
Beatriz Bajo
DESCRÉDITO
Se me perguntam:
— Escrever para TV, rende?
Respondo: — depende dos créditos
(aquelas letrinhas em que aparece o nome da gente
no começo ou no final, dependendo do canal).
A gente briga para tê-los,
para vê-los nas novelas, seriados
e acaba pirado
porque escritor não tem crédito
nem em Banco,
já que o saldo é sempre manco
e ninguém credita nada.
Ê profissãozinha desacreditada.
Leila Míccolis





