XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA

quinta-feira, 19 de março de 2015

Clarice Lispector


"(...) Que estou eu a dizer?... Estou dizendo amor... E à beira do amor estamos nós."
Para além da orelha existe um som,
à extremidade do olhar um aspecto,
às pontas dos dedos um objeto -
é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma ideia,
ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria,
à ponta da espada a magia -
é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou -
é para lá que eu vou.
Ou não vou?
Vou, sim.
E volto para ver como estão as coisas.
Se continuam mágicas.
Realidade?
Eu vos espero.
E para lá que eu vou.
Na ponta da palavra está a palavra.
(...) À beira de eu estou mim.
É para mim que eu vou.
E de mim saio para ver.
Ver o quê?
Ver o que existe.
Depois de morta é para a realidade que vou.
Por enquanto é sonho.
Sonho fatídico.
Mas depois -
depois tudo é real.
E a alma livre procura um canto para se acomodar.
Mim é um eu que anuncio.
(...) Amor: eu vos amo tanto.
Eu amo o amor.
O amor é vermelho.
(...) À extremidade de mim estou eu.
Eu, implorante,
eu a que necessita,
a que pede,
a que chora,
a que se lamenta.
Mas a que canta.
A que diz palavras.
Palavras ao vento?
que importa,
os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento.
O morro dos ventos uivantes me chama.
Vou, bruxa que sou.
E me transmuto.
(...) Que estou eu a dizer?
Estou dizendo amor.
E à beira do amor estamos nós.
Clarice Lispector

Arte: Vadim Stein

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