XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

poesia do brasil

 



Quero apenas 

Além de mim, quero apenas 
essa tranqüilidade de campos de flores 
e este gesto impreciso 
recompondo a infância. 

Além de mim 
– e entre mim e meu deserto – 
quero apenas silêncio, 
cúmplice absoluto do meu verso, 
tecendo a teia do vestígio 
com cuidado de aranha.

Olga Savary 


Salgado Maranhão - f
fotografado por Artur Gomes na 7ª FELIZ - São Luís - Maranhão


Punho da serpente


eu acompanho o movimento  da serpente
e seu diálogo com a rã.

é tanto que quando a chama
ao seu seio,
não o faz como quem mata
mas como quem constrói seu ser.

e o faz com tal leveza
que a rã se esquece que é presa
e passa a ser sua irmã.

que no combate
o punho seja assim:
quase uma imaginação,
que entre tão suave
como a nossa afeição.



Salgado Maranhão
Do Livro: A Cor da Palavra

Prêmio da academia Brasileira de Letras - 2011





Minha Casa

Zeca Baleiro

 gravada no CD Líricas 
MZA Music - São Paulo 
É mais fácil

Cultuar os mortos
Que os vivos
Mais fácil viver
De sombras que de sóis
É mais fácil
Mimeografar o passado
Que imprimir o futuro...

Não quero ser triste

Como o poeta que envelhece
Lendo Maiakóvski
Na loja de conveniência
Não quero ser alegre
Como o cão que sai a passear
Com o seu dono alegre
Sob o sol de domingo...

Nem quero ser estanque

Como quem constrói estradas
E não anda
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas
Quero no escuro
Como um cego tatear
Estrelas distraídas...

Amoras silvestres

No passeio público
Amores secretos
Debaixo dos guarda-chuvas
Tempestades que não param
Pára-raios quem não tem
Mesmo que não venha o trem
Não posso parar
Tempestades que não param
Pára-raios quem não tem
Mesmo que não venha o trem
Não posso parar...

Veja o mundo passar

Como passa
Uma escola de samba
Que atravessa
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Pergunto onde estão
Teus tamborins?
Sentado na porta
De minha casa
A mesma e única casa
A casa onde eu sempre morei
A casa onde eu sempre morei
A casa onde eu sempre morei...






Tudo é nada
a cidade abandonada
e essa rua não tem mais
nada de mim
nada.
Noite alta madrugada
na cidade que me guarda.
E esta cidade me mata
de saudade
é sempre assim.
Toda palavra calada
nesta rua da cidade
que não tem mais fim.


Torquato Neto







os homens falam
as pedras ouvem
se precipitam quando voam
meteorito
pedra com comportamento de vento
o som das pedras
materializado na voz do vento

mas a dúvida tem mãos pesadas
e a dúvida é maior que a vida

depois que a cortina da pálpebra se abriu
o som do sol se destruindo para alumiar
nunca mais cessou


Amarildo Anzolin
Do livro: EU TAMBÉM








cidade acesa

meu coração inquieto
quer zanzar
pela madrugada adentro
dentro de você
ele quer te abrasar
quer mel e beleza
quer te namorar
de pau duro
e palavras acesas


Aroldo Pereira
In parangolivro



Guilherme Rodrigues - 
fotografado por Artur Gomes no 27º PSIU Poético 
Montes Claros das Minas Gerais



II. a retina me incorpora

meu corpo para
a um olho estranho,

que, por ser olho,
tem um corpo vivo,

que sendo outro,
é um corpo estranho,

e, por ser olho,
mais estranho ainda,

e, por ser corpo,
traz a si meu corpo

e em vasto escopo
vê meu corpo todo

e o meu corpo-olho,
(ou: muito-pouco)

capta o outro olhos
- corpo-ímã –

que captado, corpo,
por meu olho,

me incorpora
à sua retina


Guilherme Rodrigues
Do livro: RETINAS
guilhermerodrigues1984@gmail.com




Lau Siqueira 
- fotografado por Artur Gomes na 31ª Feira do Livro de Brasília-DF





capoeira

um corpo
visível pomo nuca
soluça na taça

não cabe no oco

indo rugindo indo

surgindo dentro

como raiz
que floresce asas


Lau Siqueira
In Poesia Sem Pele
www.poesia-sim-poesia.blogspot.com




Celso Borges
 - fotografado por Artur gomes na 7ª FELIZ - São Luís - Maranhão



O Incêndio da Casa dos Lordes e dos Comuns

do outro lado do mundo
beira de um rio londrino
o pintor Joseph Mallord William Turner
toca fogo no fim do céu

no dia seguinte a Tate Gallery anuncia o leilão do pôr-do-sol


Celso Borges
No livro BELLE EPOQUE




Flávia D´Angelo
 - fulinaimando pelo mundo no delírio do poeta




VORAGEM

não tapa
minha cara
que boca
não cala
respiro
profundo
me seca
estressa
com língua
na meta
no poço
te afundo
que forte
me acho
não meço
só faço
respiro meu mundo
não temas
se fraco
não tentes
cansado
entrar
no meu fundo.


Flavia D'Angelo

http://trapeziotrs.blogspot.com.br/

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

poesia do brasil

Lilia Diniz 
fotografada por Artur Gomes na 31ª Feira do Livro de Brasília


4.3

Trago a faca cega das palavras
e um alfabeto pobre
incapaz de traduzir
o gozo silencioso
que o teu misterioso
e alucinógeno olhar causa
ao penetrar minha pele,
provocando ebulição
no rio da minha alma.

Sigo no exercício cotidiano
de amordaçar com o éter da metáfora escrita
o pavor que tua ausência me causa.

Asfixio meu pensamento
e faço da poesia
monólogo de saudade
do teu corpo sobre o meu


4.4

Os moinhos de vento do teu peito
giram na direção oposta
da rota que insiste
aproximar nossas bocas.

Teus olhos me despem
com volúpia incendiária.

Empunhando a espada do silêncio
tua língua em brasa
devora meus lábios
com a fome dos mil dias.

Tua saliva queima minha pele
calcina meus ossos
gelando meu pensamento
no espaço entre os suspiros ejaculados
no vulcão do meu ventre em erupção.



LíliaDiniz
www.pelegrafia.blogspot.com





Brasília - num sábado de chuva - foto: Artur Gomes




poema contemporâneo 



1

fazer o poema
contemporâneo,
verso de
pólvora,

e fazê-lo
livre
como se não
fosse verso, pois

não é
este que flagra
um perfil
quando aceso.

2

se contem
porâneo, que os
críticos futuros
o contem,

e lhe expli
quem o pli in
explicável
em que se implica,

pois o palito só
o é se fagulha
súbitos tigres
no escuro.

3

o presente é
menor que o passado
pois o passado é desde
e para sempre,

o presente é ainda
menor que o futuro
que não é ainda
único,

o presente cabe
na cabeça de
um palito
útil.

4

poema nem
palito o é a
pós o fósforo
reduzi-lo a car

vão retorcido,
é o que prova
a história
de qualquer sol

ícito palito
finito no escuro:
risque-o até ar
der nos dedos.





Marcelo Diniz

*
Publicado 2nd April por Marcelo Diniz em Mallarmagens 

**












DAS DORES DE SANTA MARIA


a dor tem tantas formas de doer
mas ela dói mais quando se chora
por quem não sentirá mais nenhuma dor

a dor tem jeitos diferentes de doer:
dói no corpo daqueles que se solidarizam
com o infortúnio dos outros,
tem vezes que dói até mesmo na indiferença 
daqueles que não estão nem aí pela dor que os cerca

porém, a dor da indiferença 
é a mais doída de todas as dores
porque ela fica represada entre muros insensíveis
que um dia haverão de se romper
e então todas as dores doerão numa só dor
por isso a dor pelos meninos mortos em santa maria
dói em cada um de nós 
como se também estivéssemos
transitando sem rumo pelo inferno 
de fogo & fumaça & desespero
do qual tantos não conseguiram escapar

é uma dor muda, entalada dentro da gente
que alguns vão suportar em silêncio,
cruz a ser carregada feito culpa
pela inoperância das nossas leis...

mas o conforto para tantas lágrimas 
há de vir das bocas que não se calarão
e das vozes que não se deixarão sufocar
em memória de tanta vida, tanta alegria 
e de tantos sonhos que nos escaparam
naquela maldita nuvem de fumaça.


Ademir Antonio Bacca
www.ademirbacca.blogspot.com




Jiddu Saldanha
 fotografado por Artur Gomes - no Congresso Brasileiro de Poesia 
- Bento Gonçlaves-RS - outubro 2013


Urubu Macio

Come minha carne
e lembra de roer o osso
no fundo do cerne
deguste a cartilhagem
meu cérebro à mesa
é for de banquete
aos predadores da
civilização

me leva em teu bico
oh urubu macio
cante sua canção silenciosa
aos quatro ventos
não me deixe aqui
triste e só
dê a esse corpo
o direito de ser pó

Jiddu Saldanha





terça-feira, 3 de dezembro de 2013

poesia do brasil

Múcio Góes






ÓTICA

talvez joio
mas vi trigo

translúcido 
o mergulho
de tais névoas

o que se sabe
já nem arde
para os olhos
do grão visto 

Beatriz Helena Ramos Amaral






A la carte


Penso em
carne crua
enquanto você
me diz: fruta!


marisa vieira







Oral

Coisa mais vagabunda
Vagaba
É a palavra
Pulando de boca suja em boca suja

Reles prostituta sem exigências
Velha de assanhos
Palavra nua
Qualquer canto e cama

Não dorme, já está com outro
Se o de antes silencia
Palavra nascida, com homem
Não vive sem

Promíscua, sem reservas
Palavra sua
Mal gozou e nem se limpa
Se mete em outra

Vez em quando alguém a arruma
Põe enfeite, leva para passear de braço dado
Solene como
Uma palavra de época.






à flor da pele
além da pele

membros e alma
minha vida inteira
dói.

Ana Sandra








DIA CINZA

O Coração sangra,
e um riso desmaia na face
enquanto a última estrela da noite
se despede da solidão
e o vento sopra baixinho um dia sem luz.

Hoje não tem alegria na feira
nenhuma poesia dirá pra ser feliz
não estou disponível pra sorrir
nem tampouco pra chorar.

Nem mágoa nem trégua
sem graça nem desgraça
e alérgico às pequenas coisas
sigo indiferente às rosas
nem cultivo espinhos,
um jardim sem primavera..

A Felicidade sabe meu nome de batismo,
mas insiste em me chamar pela alcunha de poeta
as vezes respondo, outras finjo que não conheço
Cartola e Bilie Holiday sabem do que estou falando.

Estou circo sem palhaço
e suas mãos de trapézio despedem-se dos meus abraços.
Da cartola, um dia sem magia
se equilibra no horizonte
e os pardais ensaiam um blues da melancólica.

Nem garoa nem tempestade
nem preto nem branco
E o sol, indisposto, falta ao compromisso
enquanto uma manhã cinzenta cavalga no céu azul
e fotografias velhas saúdam lágrimas novas.

Meio dormindo
meio acordado
meu corpo é apenas o pijama da alma
um fantasma do passado.
Menino assustado com noites mal dormidas
ando pela rua descaminhando o cotidiano
enquanto lembranças mortas assombram o futuro.

Nem palavrão
nem palavrinha
não leio cartas nem bilhetes
o grito varre o silêncio
para debaixo do meu tapete
enquanto a poeira se impregna de sorrisos magros

Nem paz
nem guerra,
apenas um dia triste


Sérgio Vaz