XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Manual Para Assassinar Frangos




Às vezes, era o Rio Paraíba do Sul
que desmesuradamente crescia.
E as ruas ficavam cheias de escorpiões,
cobras d´água, lacraias com mil pernas...
parecia um monstro epiléptico e barrento
numa corrida maluca até o mar.

A gente torcia para que o rio subisse mais,
cada vez mais,
para que alguma tragédia
se consumasse, como no cinema.

Queríamos ver casas desabando,
árvores arrancadas à força,
as meninas, descalças,
impedidas de ir à missa dominical,
bêbados patinando no caos,
arrastados até a foz de Atafona,
numa infinita poça de lama e cuspe
que mandávamos para o céu.

Estávamos prenhes de vida
e queríamos a morte de mentirinha.
Sonhávamos com o apocalipse doméstico,
com a bomba asfixiando nossos
pré-sonhos.

O primeiro amor estava ao lado,
nas aulas do Liceu que, às vezes,
assassinávamos
com delicado prazer.

No verão de 66,
o rio ficou irado de verdade,
se emputeceu, invadiu o baú
onde eu guardava meus gibis
trocados antes das matinês do Cine Coliseu.
Adeus minha coleção
tão preciosamente inútil
de David Crocket, Buffalo Bill, Zorro,
Rock Lane, Cavaleiro Negro e etc.

E me lembro dessa grande enchente,
da aniquilação dos pessegueiros,
das parreiras, dos limoeiros, dos frangos,
da horta que minha avó tão bem cuidava.
Abius, mangueiras, bananeiras,
caramboleiras, formigas,
tudo se foi com o rio,
com essa referência geográfica
e conceitual
que ainda hoje tento traduzir.
Tudo se foi com o boi morto
no meio da correnteza,
coberto de urubus.

E no radinho de pilhas de s´eu Bertolino
(que, em uma canoa, ajudava as famílias
a recolherem seus pertences),
os Beatles cantavam “I want a hold your hands”.

Comecei a crescer com os Beatles
(e eles comigo),
a respeitar o rio e a temer s´eu Leleno,
meu vizinho e flamenguista doente,
que nas tardes de domingo,
quando o seu time perdia, enfiava a porrada
na Dorotéia, sua mulher - e maior torcedora
do Flamengo, por motivos amplamente justificados.

Também havia a Josete,
que ajudou a me descriar
e que tinha um namorado chamado Jomar,
um refinado sem vergonha.
Em 62, o Brasil foi bi-campeão
e Josete imaginava
Jomar fazendo gols nela.
Se Josete gozava, o fazia discretamente,
como os anjos gozam.
No silêncio.

Josete, que hoje é avó,
era filha de Neco Felipe,
um negro caolho e feliz,
que organizava os forrós
em Conselheiro Josino,
interior de Campos dos Goytacazes.
Forrós animados com cachaça, lampiões,
sanfona e alguma voz desdentada,
uivando para a Lua, nas quentes
madrugadas.

Além de Neco Felipe,
conheci outras pessoas felizes
que moravam naquela vila
no verdadeiro cú do mundo,
entranhada na miséria e nos canaviais
(os dois sempre andaram juntos),
com um cemitério
na beira da estrada.

Minha cabeça

se embaralhou toda:
- como é que as pessoas
podiam ser felizes
em Conselheiro Josino ?

Como é que as pessoas
podiam ser felizes
naquela merda,
ao lado de um cemitério
mambembe,
perto de um rio carregando tudo?

Como é que as pessoas
podiam ser ?

Mas as pessoas
eram
e algumas até se
foram.


Martinho Santafé - Poema vencedor do III FestCampos de Poesia Falada, Campos dos Goytacazes - RJ, agosto/2001

Martinho Santafé




PAISAGEM

Alguém aguarda
como um anjo noturno
pela flor nascida
nos metrôs.

Estar longe
é como as águas dos rios
e tudo o que elas transportam:
o bicho putrefato
árvores solenes
pneus gastos
peixes químicos
destroços das pontes.

Das sombras
saem as mais sutis das bombas
atentas em cada canto dos tuneis
em cada poema que virá.

O sábio constrói esquinas
e as abraça com seu manto
laser.

De minha janela
vejo buganvílias
e beija-flores
atômicos.



O pássaro elétrico


O pássaro elétrico
emite passaportes
para o céu.



Na orquestra dos fios
rima vôo com azul.



Deflorando a manhã
como um helicóptero
bêbado.


Martinho Santafé
Poeta.jornalista.artista plástico
Autor de Manual Para Assassinar Frangos
Vencedor do IIIº FestCampos de Poesia Falada - 2001
Natural de Campos dos Goytacazes
Radicado em Macaé desde 1980

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sete haicais políticos filosóficos de Jiddu Saldanha


Ilha do Nada - foto: Jiddu Saldanha


Jiddu Nasceu em Curitiba, 1965 e atualmente vive na cidade de Cabo Frio. Dedica-se ao haicai desde muito jovem, mas só agora decidiu mostrar sua produção com mais clareza. Em 2005 fez o Livro “Do Crepúsculo ao Outro Dia”, junto com o poeta amapaense, Herbert Emanuel

___________


O ditador que há em mim
saúda o ditador em ti
- mundo em guerra

*
O universo todo
no avesso de mim
- algo assim

*
Vida partida –
até a semente da vida
foi roubada

*
Verão alegre –
a simplicidade da vida
é o presente

*
Sensação água –
mergulho no rio da vida
e lá se vão as mágoas

*
Passeio de bicicleta –
o vento batendo no rosto
da felicidade
*
Por do sol –
gritos indígenas à margem
do Araguaia


jiddu saldanha
www.fotografiapossivel.blogspot.com

congresso brasileiro de poesia - lançamentos no Rio




CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA PROMOVE SESSÃO DE AUTÓGRAFOS NA LIVRARIA ARGUMENTO LEBLON

Em sua vigésima primeira edição, o Congresso Brasileiro de Poesia é um dos mais tradicionais e longevos festivais de poesia do Brasil e também da América Latina. Realizado anualmente na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, o evento caracteriza-se por sua programação voltada em sua maior parte para as escolas do município, atingindo um público aproximado de 25 mil pessoas.

Entre os inúmeros projetos que compõem o evento, destacam-se: “Poesia na Escola”, que consiste na distribuição de livros de poesia aos alunos como forma de incentivo à leitura, “Autor Presente na Sala de Aula”, que leva os autores para as escolas, e “Poesia na Vidraça”, no qual os estabelecimentos comerciais cedem espaços em suas vitrines para a escrita de poemas, os quais, em muitos locais, permanecem intocáveis ao longo do ano seguinte.

Em suas vinte edições já realizadas o Congresso Brasileiro de Poesia levou a Bento Gonçalves grandes nomes da poesia das três Américas e também da Europa, publicou 16 volumes da coleção “Poesia do Brasil”, 9 da coleção “Poeta, Mostra a Tua Cara” e distribuiu mais de 20 mil exemplares destes livros junto às escolas e comunidade bento-gonçalvense.

No próximo dia 22, a partir das 18 horas, acontece o lançamento oficial da edição 21 do evento e dos volumes 15 e 16 da coleção “Poesia do Brasil”, na Livraria Argumento do Leblon, Rio de Janeiro, seguidos de um grande sarau.

Marina Colasanti é a escritora homenageada do evento neste ano, que acontece entre os dias 30 de setembro e 5 de outubro, na capital brasileira da uva e do vinho e também maior polo moveleiro do país.

Flauta


 
FLAUTA

volúpia rouca
da ponta ao talo
teu falo me conta
estrelas no céu 
da boca

Lúcia Santos

Marina Colasanti




Rota de Colisão

De quem é esta pele
que cobre a minha mão
como uma luva?
Que vento é este
que sopra sem soprar
encrespando a sensível superfície?
Por fora a alheia casca
dentro a polpa
e a distância entre as duas
que me atropela.
Pensei entrar na velhice
por inteiro
como um barco
ou um cavalo.
Mas me surpreendo
jovem velha e madura
ao mesmo tempo.
E ainda aprendo a viver
enquanto avanço
na rota em cujo fim
a vida
colide com a morte.

Marina Colasanti
In Poesia do Brasil – Vol. 15
Proyecto Cultural Sur Brasil – Editora Grafiti
Congresso Brasileiro de Poesia – Bento Gonçalves-RS - 2012