XVIII CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Moacy Cirne


foto: artur gomes


EISENSTEINIANA

[Moacy Cirne, Cinema Pax, 1983]


a revolução

(sangue, suor e carne)

é violenta como o vermelho
dos crepúsculos de
outubro
e doce como o cheiro de
terra molhada

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Manuel Bandeira




Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.

A morte absoluta



Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.


Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.


Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.


Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."


Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

para sempre




Para Sempre 


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Ravel





RAVEL 
  
 
Todo telefone é terrível - negro
guerrilheiro, à escuta na sala
disfarçado ao lado do sofá
à espera, no gancho
sempre na véspera
com o grampo da granada
já nos dentes.
A única saída é ocupá-lo
para que não estoure
(não posso te agarrar aqui
nem pelos fios dos cabelos
pare antes que toque
e o infinito acabe).
Todo terrível é telefone - negro
à escuta
guerrilheiro à espera
ao lado do sofá
disfarçado na sala
na véspera da granada
com o grampo nos dentes fora do gancho
ocupando a única saída
para que não estoure
(não posso nem pelos cabelos
antes que acabe e toque
o infinito, te agarrar, nos fios, pare
daí).

 
Armando Freitas Filho

cabeças cortadas

cabeças cortadas



Sargaço


em armação de búzios
 tenho um amor sagrado
guardado como jura secreta
que ainda não fiz para laís
em teus cabelos girassóis de estrelas
que de tanto vê-las o meu olho  vela
e o que tanto diz  onda do mar  não leva
da areia da praia onde grafei teu nome
para matar a sede e muito mais a fome
entranhada  na carne como flor de lotus
grudada na pele como tatuagem
flutuando ao vento como leve pluma
no salgado corpo do além mar afora
sargaço em tua boca espuma
onde vivem peixes  - na cumplicidade
do que escrevo agora

arturgomes

cabeça


arte: fátima queiroz



Cabeça


Quando eu sofria dos nervos
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter que lavar minha boca com cinza.

Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje que sarei tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.

Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou de manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de atenção! que eu escrevo
E ponho perto. Um bispo quando tem zelo
Apostólico, é uma coisa charmosa.

Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando, “ minha filha, minha filha” ,
ele pensa que é woman´s lib, pensa
que a fé ta lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim
ninguém entende. Gritava até parar,
quando eu sofria dos nervos.

Adélia Prado

T e c i d o





Asa de poema – anzol
para fisgar
na mesa uma linha

um fio grafado de corda
cortes-recortes
a tessitura do nó

e a lâmina de Urano
faz legenda de
papiro no etéreo: foz

move-se a areia na vertigem:
duna
dali se extrai o néctar
de pedra

pêndulo e farol
hipótese de concha
e tempo

Beatriz Helena Ramos Amaral
In Poesia do Brasil Vol. 15
Proyecto Cultural Sur Brasil – Editora Grafiti
Congresso Brasileiro de Poesia – Bento Gonçalves-RS